Frequências Solfeggio

Unknown

Volta e meia, o conceito das frequências solfeggio volta às redes sociais de forma mais ou menos explícita. Não tenho paciência pois trata-se de um completo disparate histórico e fisiológico, começando pelo facto de o conceito de Hertz (HZ) ser muito recente: o Hz – número de ciclo por segundos que nos dá a altura do som e, assim, a frequência da nota que lhe quisermos atribuir, que é arbitrária – foi definido por Heinrich Rudolf Hertz (1857-1894) na segunda metade do século XIX. Logo, é virtualmente impossível demonstrar historicamente a existência de frequências solfeggio antes dos séc. XIX-XXI e o seu uso por Pitágoras na Antiguidade ou por quem quer que fosse na Idade Média e muito menos legitimar historicamente práticas curativas com base nas mesmas, que “são”: Dó – 396 Hz; Ré – 417 Hz; Mi – 528 Hz; Fá – 639 Hz; Sol – 741 Hz e Lá – 852 Hz. Por isso, vou deixar a questão matemática de fora e explicar algumas questões históricas e da fisiologia da voz que tornam estas frequências totalmente improváveis em tempos remotos.

Para já, a prática da musicoterapia na Europa ocidental durante a Idade Média, altura em que surgiu o solfejo, ou era escassa ou a sua documentação infelizmente perdeu-se (vide HORDEN Peregrine, Music as Medicine – The History of Music Therapy Since Antiquity. Ashgate, 2000). Algo normal, nessa época, em muitas outras e até na nossa – guerras, desastres naturais, heranças, negligência ou, sim, censura, são vários dos motivos para se perder documentação relevante, mas não neste caso, visto que fisiologicamente o uso destas frequências é completamente improvável.

Quando falamos, abarcamos apenas cerca de um intervalo de quinta a partir da nossa frequência da fala que é, em média, 125 Hz para os homens e 250 Hz paras as mulheres. Ou seja, falamos, para dar expressão ao que dizemos, cerca de uma terceira para baixo ou para cima da nossa frequência fundamental da fala. Isso muda quando estamos nervosos, entusiasmados, preocupados ou desgostosos, pois podemos, conforme as situações, perder a fala ou ir até ao extremo agudo da nossa voz para exprimir o que nos vai no âmago.

E também muda quando cantamos, pois aí ampliamos o nosso registo vocal. No entanto, na Idade Média, quando surge o solfejo no séc. XI, e também na Antiguidade Greco-Romana, esse registo ficava sensivelmente pelo âmbito de uma oitava e um pouco mais em peças elaboradas cantadas por solistas, sendo essas a excepção e não a regra: era, por exemplo, o caso de algum do repertório litúrgico Gregoriano para peças da Missa, onde só peças do Próprio (específicas para o Natal ou a Páscoa, entre outras) apresentam uma maior extensão algo significativa. Já no repertório Gregoriano da Liturgia das Horas ou Ofício Divino, cantado diariamente nos mosteiros ou conventos, encontram-se essencialmente peças muito simples, de âmbitos de cerca de uma quinta e recitação salmódica numa única nota, com entoação, inflexão e cadência. A consequência da implementação do Canto Gregoriano, a partir da segunda metade do séc. VIII, foi que por todo o Império Carolíngio se tornou necessário aprender de raiz um repertório essencialmente novo, sem o suporte de uma notação musical, que entretanto se foi paulatinamente desenvolvendo (isto é importante para perceber por que é que o solfejo aparece).

Ora, se pensarmos que a grande maioria das pessoas que cantava música litúrgica na Idade Média era constituída por elementos do sexo masculino, cuja frequência fundamental da fala é 125 Hz e, portanto, as notas médias cantadas por eles andariam à roda de uma oitava em redor dessa frequência ou pouco mais, então podemos constatar que era total e absolutamente impossível usar uma escala que contivesse as denominadas frequências solfeggio: se, segundo essas frequências, Dó corresponde a 396 Hz, essa já está acima da frequência média feminina da fala e, usando as outras todas, os intérpretes masculinos de música sacra estariam a cantar entre 3,5 a 4 oitavas acima do seu registo confortável e fora do âmbito musical habitual da Idade Média para a música religiosa, que consistia em 2,5 oitavas (e num sentido muitas vezes teórico e não prático, tal como na Grécia Antiga). Desta forma, um Lá com 852 Hz é simplesmente impensável num repertório medieval cantado por homens e na maioria do repertório composto pela História fora, se exceptuarmos os castrados ou os actuais contratenores.

Mesmo cantada por mulheres, essa seria uma nota excepcionalmente aguda pois está normalmente no limite a que uma mulher consegue chegar em média. Assim, na época, se fosse esse o caso, as mulheres estariam a cantar num registo extremamente agudo (uma oitava acima do normal) e pouco confortável e o canto litúrgico era essencialmente, embora não só, um repertório funcional e por isso sem grandes malabarismos a não ser em casos muito particulares, que dificilmente iam até esse Lá (nunca vi nenhuma peça com um desses). Já uma cantora de ópera oitocentista faria isso com uma perna às costas. Isto é válido, também, para a música profana da época medieval que anda igualmente vocalmente também à roda do tal âmbito de oitava. Portanto, atendendo às características do repertório, é simplesmente impossível que estas frequências tenham sido usadas na Grécia Antiga ou na Idade Média.

No entanto, o solfejo realmente existe historicamente e foi uma criação de um monge chamado Guido d’Arezzo (c. 991 – c. 1033), que também se destacou pela introdução de uma pauta com alternância linha/espaço em que ao Fá correspondia uma linha pintada a vermelho e ao Dó uma linha pintada a amarelo (estas eram notas importantes visto que ficavam imediatamente acima dos meios-tons). A única e real função do solfejo era ajudar os  monges a aprender a ler rapidamente notas à primeira vista e, assim, a memorizar o repertório que, apesar do progressivo desenvolvimento da notação – nomeadamente pelo próprio Guido d’Arezzo, como acima referido – mantinha uma componente importante de transmissão oral e uma memorização natural (todos nos lembramos de uma quantidade incrível de músicas, certo?). No entanto, e isto é essencial perceber, não havia um diapasão ou uma frequência de referência e, portanto, partia-se do que era de facto cómodo de cantar e dos próprios instrumentos com alturas tendencialmente fixas, a começar pelo monocórdio (mas que não tinha sempre a mesma extensão da sua corda em todo o lado e era um instrumento que visava sobretudo a instrução musical e a demonstração teórica) e pelos órgãos das igrejas, que não eram especialmente amplos na sua tessitura na época e que, para além do mais, tinham mesmo muitas vezes afinações distintas de igreja para igreja e de cidade para cidade.

A ideia de Guido d’Arezzo foi simplesmente arranjar um sistema que permitisse que os monges aprendessem peças com maior facilidade. Como? Usando um esquema de 6 notas (hexacorde) em que entre a 3ª e a 4ª houvesse sempre um meio-tom e que pudesse ser aplicado 7 vezes à gama musical usada teoricamente na Idade Média começando ou a partir de Dó, de Fá ou de Sol (hexacorde natural, do bemol ou do bequadro e havia naturalmente sobreposição de hexacordes). Guido d’Arezzo retirou a ideia de um hino a São João Baptista no qual todos os incisos começavam precisamente com as sílabas Ut[Dó], Ré, Mi, Fá, Sol e Lá, formando uma escala diatónica de 6 notas com um meio-tom exactamente no meio. As sílabas usadas por Guido eram as sílabas iniciais de palavras maiores e correspondem às nossas actuais designações de notas musicais portuguesas (actualmente, nos países anglo-saxónicos, a designação é alfabética, o que também parece explicar o aparecimento do conceito de frequências solfeggio nesses lugares, associado certamente ao marketing da venda de diapasões com frequências eventualmente curativas).

Assim, cada vez que aparecia o meio-tom, cantava-se (ou recitava-se) sempre mi-fá, fossem as notas de facto mi-fá (hexacorde natural), ou lá-sib (hexacorde do bemol) ou si-dó (hexacorde do bequadro). Basicamente, Guido d’Arezzo pôs os monges a solfejar segundo uma regra específica que era uma “mudança” de hexacorde (entre aspas porque as sílabas eram sempre as mesmas, não correspondendo por isso necessariamente a uma modulação) ou Dó móvel e isso não tem mesmo absolutamente nada a ver com alturas de notas em Hz e muito menos com frequências fosse de que natureza fossem.

Dito isto, é realmente surpreendente o facto de tanta, mas tanta gente que faz terapias de som e concertos alternativos estar tão mal informada relativamente às suas práticas, desde as frequências solfeggio, à suposta melhor afinação padrão de 432Hz ou partilhando notícias sobre os efeitos benéficos da música que raramente têm citadas as fontes, tornando-os duvidosos e simples pseudo-ciência, tratando assim com ligeireza o seu trabalho e desrespeitando os seus clientes. Neste caso, trata-se pura e simplesmente de uma tradição inventada, um facto sociologicamente estudado pelo menos desde a publicação do livro The Invention of Tradition, de Eric Hobsbawn e Terence O. Ranger: Cambridge, Cambridge University Press, 1983. Não é verdade e, nesse sentido, histórica, científica e espiritualmente desonesto. É simplesmente uma invenção new age. Se as designadas frequências solfeggio são de facto terapêuticas, isso é outra história, que precisa eventualmente de uma comprovação científica sustentada mediante amostras significativas.

Na imagem, a mão guidoniana, provavelmente já não da sua autoria, mas usada durante muito tempo para a aprendizagem do solfejo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s